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A campeã da década

Fonte: Revista Veja - Edição 1748 - 24 de abril de 2002

Com perfil fortemente agrário, a Austrália
se destaca no clube dos países ricos e
foi a economia mais brilhante dos anos 90

Murilo Ramos

   Certamente, é mais fácil alguém lembrar-se da Austrália pelos cenários desérticos, cangurus e pelo filme de Crocodilo Dundee do que propriamente por sua desenvoltura econômica. Aos poucos a imagem de país exótico dá lugar à de uma nação rica. Com um crescimento médio anual da economia de 4,1% na última década, a Austrália foi o país que mais cresceu entre os classificados como desenvolvidos. Até mesmo no ano passado, quando a economia mundial patinou em conseqüência dos atentados terroristas aos Estados Unidos, os resultados australianos foram brilhantes. Mais uma vez, o PIB do país cresceu 4,1%.

   Por incrível que pareça, num mundo econômico dominado pelos artigos manufaturados, um dos motivos centrais que levam o país a prosperar de maneira tão significativa é ter a economia dependente de produtos primários, como o ouro, a bauxita, a carne bovina e a lã. Com a desvalorização do dólar australiano, suas mercadorias cotadas em moeda americana ganharam competitividade e ajudaram o país a exportar. O curioso é que a industrialização sempre foi considerada premissa para o crescimento de qualquer economia. Não que na Austrália a teoria possa ser refutada, mas não encontrou o melhor abrigo. Um exemplo disso está na atuação australiana em reuniões da Organização Mundial do Comércio. Natural seria ela unir-se aos ricos parceiros do norte e discutir propriedade intelectual, mas prefere juntar-se aos países em desenvolvimento, como o Brasil e a África do Sul, para derrubar as barreiras protecionistas impostas pelos europeus sobre os produtos agrícolas.

   Outro motivo que explica a era dourada da Austrália está no mercado imobiliário, que cresceu só no último ano à incrível taxa de 21%. Conseguir crédito é fácil, e os juros a longo prazo são um estímulo aos jovens para que deixem a casa dos pais e concretizem o sonho de ter o próprio teto. Os investimentos da iniciativa privada aumentaram 9%. Há ainda um incremento recorde na produtividade, de 5%. Um dos setores que mais se beneficiam com isso é o de negócios no campo. A localização privilegiada e o uso intensivo de alta tecnologia nas vinícolas fizeram com que o país emplacasse alguns de seus tintos encorpados entre os melhores vinhos do mundo. Além disso, a Austrália exporta mão-de-obra especializada para vinícolas dos Estados Unidos, Portugal, Espanha e até da França.

   Um fator mais distante que explica o exuberante momento do país é seu relativo distanciamento do mundo da tecnologia de informação. Enquanto a economia americana tem 45% dos investimentos em ações na nova economia, a Austrália possui apenas 15%. Com isso, a crise da Nasdaq foi sentida de forma muito mais branda, o que completa o triunfo do país. "A Austrália passa por um momento memorável", diz Peter Costello, tesoureiro do Estado de Victoria, um dos que mais cresceram no país. Todos os indicadores econômicos ajudam a compreender apenas parte da Austrália, que se tornou um daqueles lugares invejáveis, principalmente após as imagens de Sydney, sede das Olimpíadas de 2000, invadirem o planeta.

   Em seu gigantesco território, o sexto maior do mundo, o analfabetismo é inexistente. De cada três pessoas, uma é usuária da internet. A expectativa de vida é de 80 anos e o índice de desenvolvimento humano é o segundo melhor do mundo, perdendo somente para o da Noruega. No ranking dos países menos corruptos, a Austrália está na primeira fileira. A violência urbana ainda não preocupa a população. Há, no entanto, alguns aspectos que incomodam os australianos. A colonização branca no fim do século XVIII, que praticamente dizimou a população nativa, é um. Vira e mexe as contestações contra o tratamento das minorias voltam à tona. A questão populacional é um dilema. Alguns especialistas sustentam que a Austrália é rica porque produz muito e tem apenas 19 milhões de pessoas para comer o bolo. Outros se preocupam com a povoação, concentrada no leste e no sudeste, e acreditam que o país poderia crescer a taxas mais elevadas se tivesse um contingente populacional maior.

   De acordo com o embaixador brasileiro em Canberra, Antônio Augusto Dayrell, a Austrália tem receio de perder o atual estado de bem-estar social e por isso adota um sistema rígido de imigração, dando visto definitivo apenas às pessoas com mão-de-obra qualificada. Essa questão é histórica. A Austrália se enxerga como uma ilha, gigantesca, quase continental, mas que sempre se preocupou em filtrar a chegada dos estrangeiros. Sofre, ainda, com problemas ambientais e deficiências naturais, pois seus rios são poucos, e de vazão muito irregular. A alta emissão de gás carbônico, conseqüência da queima de carvão em suas termelétricas, começa a inquietar os prefeitos das grandes cidades. Esses problemas, porém, são pequenos quando comparados com os desafios propostos a outras nações. A Austrália é hoje o eldorado do mundo.



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